Nobel, literatura e sociedade

Orphan Pamuk de novo, agora mais numa perspectiva social do que literária. Este autor, nascido e residente na Turquia, ficou conhecido igualmente paela sua tenacidade na conscencialização do povo turco sobre o genocídeo arménio que ocorreu durante a 1ª Guerra Mundial no então império Otomano. Tal situação já o levou a tribunal por ofensas à nação Turca.
Os estados têm uma imensa capacidade em negar factos (veja-se as imagens de nepaleses, na neve, a serem atingidos, à distância, por soldados Chineses... num suposto conflito de fronteira!) e esta é mais uma questão que divide até os próprios historiadores (genocídeo ou fome e doença generalizada) que deveriam ser isentos e preocupados com factos, mas que são humanos. A negação de factos ligados a crimes contra a humanidade não é apenas uma questão para historiadores, é uma questão social básica. É atribuído a Hitler a seguinte afirmação, por ocasião da invasão da Polónia em 1939:
"Thus for the time being I have sent to the East only my 'Death's Head Units' with the orders to kill without pity or mercy all men, women, and children of Polish race or language. Only in such a way will we win the vital space that we need. Who still talks nowadays about the Armenians?"
O futuro não se faz sem o passado e é o modo como encaramos o passado que marcará o nosso futuro. Sendo a Turquia um dos candidatos para adesão à Comunidade Europeia, não é irrelevante conhecer os princípios orientadores de uma nação e dos seus políticos (tal como não foi ignorada a afirmação de falsidade do holocausto judeu transmitida pelo presidente iraniano). Nestas alturas é bom lembrar que existe uma Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, da qual Portugal é signatário, onde se define o genocídeo e a sua rejeição formal.
A comissão de assuntos externos do Parlamento Europeu já tinha denunciado, em 2004, a perseguição a Orhan Pamuk e outros pela expressão não violenta de opiniões [doc. em PDF].
No mesmo dia em que era anunciado o laureado Nobel em literatura, em França era aprovada uma lei em que se instituiu como crime a negação do genocídeo arménio. Não sendo ainda um assunto legalmente terminado, vai dar muito que falar em França, já para não falar do grande caminho que falta para que a União Europeia, no seu todo, o venha a reconhecer como tal.
É certo que este genocídeo arménio não tem a mesma relevância internacional que o holocausto judeu (não sendo de ignorar a maior capacidade destes em influência política a nível internacional) mas a Academia Sueca mostra, mais uma vez, que não ignora as condicionantes politico-sociais em que um escritor se situa: decididamente não há almoços grátis.
Recursos para actividades de animação da informação em bibliotecas: