A Cidade dos livros


«Desde a conquista da escrita, poucas coisas modificaram tanto quanto nossa maneira viver, como a popularização dos livros. Na sociedade de consumo a indústria colocou nas mãos de todo o cidadão da classe média, confortos comparáveis somente a que tiveram os imperadores na antiguidade. (...)
Mas poucas coisas foram tão radicalmente inovadoras como ter-se evoluído das bibliotecas medievais restritas, nas quais tinha-se que reter o conhecimento na memória (o livro não podia ser tirado de lá), a menos que fosse o bispo ou o abade, à biblioteca pessoal ou à biblioteca pública próxima e acessível.
(...)
Ler não é necessariamente uma garantia de sensatez e sabedoria. Muitos confundem a capacidade de soletrar, de encadear as sílabas, de decifrar um texto, com a arte de ler. Mas a leitura verdadeira consiste em liberar a carga de emoção, a imaginação, sensibilidade, sentido, e o ritmo que há em um texto, e os textos mais ricos são certamente os textos literários. Toda a língua é inicialmente um exercício dos sons e sua origem é confundida com a música. E a escrita é uma invenção tardia, já que toda a escrita consiste em extrair sons.
(...)
Uma cadeira não é mais do que uma cadeira, uma rosa não é mais do que uma rosa, mas um livro é sempre muito mais que um livro, muito mais que um objeto, muito mais que um volume composto por vários planos nos quais são impressos caracteres. Um livro pode ser viagens, crimes, descobertas, guerras, incêndios, amores inesquecíveis, naufrágios, milagres, medos, semanas inteiras de beleza, de terror ou de sabedoria. Neste mundo há muitas coisas maravilhosas e a leitura é somente uma delas.»

Discurso de William Ospina na abertura da 2ª Acta Internacional da Língua Espanhola
(Junho 2007 -
Bogotá, Colômbia).
http://www.blogdogaleno.com.br/texto_ler.php?id=1268&page=13