Jovens no regresso à leitura

Nos últimos anos começaram a surgir estudos de consumo que mostram que as crianças e os jovens estão a ler cada vez mais. O final dos anos 90 e especialmente o início do século XXI marca uma inversão na tendência que foi moda nos anos 80: não ler!
E isto apesar dos maiores avanços em qualidade de conteúdos disponíveis online ou pela TV, o livro tem ganho adeptos.
Então mas porque continuamos a dizer que os jovens de hoje não lêem? Porque simplesmente existe um novo mercado livreiro, as leituras disponíveis hoje para jovens não estavam disponíveis há 30 anos atrás, o mundo mudou e ler já não é ler um conjunto de obras quase finito em que se podiam facilmente comparar as leituras que cada um já tinha feito... e o que faltava fazer.
Hoje são os adultos que não leram uma imensidão de obras orientadas para os jovens e que podem começar a ouvir frases semelhantes: os meus pais nunca leram estes livros, não sei mesmo o que faziam com o seu tempo!

E as receitas foram simples, podendo destacar alguns contributos positivos:

O acesso aos livros:

  • Maior investimento dos estados em bibliotecas escolares (se o berço se vive cada vez mais na escola...)
  • Investimento das bibliotecas de leitura pública em obras actuais e populares em competição com as livrarias: o livro deixa de ser um bem precioso e passa a estar ao dispor de todos.
  • Descida do custos de aquisição de livros, não apenas em termos de preços motivado pela concorrência de autores, mas essencialmente através da disponibilização de livros online, quer para venda, quer para consulta livre (veja-se o sucesso de lojas online como a Amazon ou de sites de e-books pagos ou gratuitos como os do projecto Guttenberg.
  • Estratégias de marketing das livrarias: as lojas em centros comerciais estão muito longe das tradicionais livrarias e são cada vez mais um ponto de venda de novidades. Não é sem defeitos que isto acontece, mas popularizou um determinado tipo de literatura.

Os escritores:

  • Surgimento de bons escritores orientados para o público infantil e juvenil (no caso português é difícil encontrar um escritor orientado para o público infantil no século XIX, ou até mesmo anterior a 1975)
  • Pulverização do número de escritores, com edições curtas é certo, mas em que todos os meses surgem novos escritores, trabalhando para novos públicos que já não seriam atraídos pelas propostas existentes.
  • A chamada literatura light marca igualmente um mercado para um público descontraído, o mesmo público que não vê o filme intelectual francês, mas que vai ao cinema ver uma comédia familiar de Hollywood, um público virado para o entretenimento.
  • Surgimento de fenómenos literários de massas, com alguns escritores a aparecerem como estrelas (casos de J.K. Rowling)
  • O fenómeno das super estrelas de vendas, levou a uma fidelização de leitores a escritores e fez com que as editoras ofereçam contratos de trabalho a longo prazo. Se determinadas obras têm edições esgotadas antes mesmo de serem enviadas para as livrarias (à semelhança dos êxitos musicais), os escritores podem trabalhar melhor o seu mercado de leitores e estabelecer relações de fidelização. Assim surgiram os sites pessoais, as entrevistas, as aparições na TV, as palestras em bibliotecas (hoje funciona até ao estilo de uma tournée) as campanhas de autógrafos... tudo estratégias que Aquilino Ribeiro ou Miguel Torga não puderam desenvolver.. e não foram influenciados por elas!

As editoras

  • Investimento de editoras em livros criados para o público infanto-juvenil (fazer com que jovens se interessem pela literatura começando pelos clássicos foi uma má aposta num tempo em que começaram a aparecer as consolas de jogos e a internet)
  • A venda de livros em clubes restritos (tipo circulo de leitores) foi substituída pela venda associada a produtos jornalísticos aparecendo o livro como um valor acrescentado, um bónus ao consumidor cada vez mais europeu e padronizado (veja-se a colecção Mil Folhas lançada por diversos jornais europeus).

Os leitores

  • Aumento dos índices de alfabetização e dos níveis de escolaridade com uma escolaridade obrigatória inicial cada vez mais longa.
  • Ler um livro é uma arte, mas altos níveis de leitura implicam igualmente a capacidade dos leitores em lerem as obras num tempo adequado *a velocidade da produção e modas literárias. Se os leitores lêem mais depressa, estarão mais vezes disponíveis para novas leituras.
  • Imitação de comportamentos dos jovens adultos que tinham sido a geração da "não leitura" e que acabaram por se tornar na geração de leitura light mas igualmente atraídos por fenómenos de super estrelas da escrita como Dan Brown ou Stephan King.
  • A variedade de leitores implicou uma diluição dos géneros literários em que cada vez mais é difícil de identificar claramente um género literário o que é útil para um público que já não é tão facilmente segmentável, ou pelo menos em grandes grupos amorfos.
  • Novos tipos de leitura, com a leitura online, leitura de capítulos de livros que são publicados antes de serem impressos (afinal ler parte de uma obra... é ler!).

A sociedade e a cultura

  • Adaptação ao cinema de livros orientados para o mercado juvenil. Quase todos os heróis da BD foram transpostos para o cinema nos últimos 10 anos e o mesmo se verificou com livros referência como o "Guia Galáctico do Pendura", ou "O senhor dos Anéis", duas das obras mais vendidas a nível mundial nos últimos 40 anos (não me diga que não leu os dois... olhe que são trilogia!!)
  • Campanhas de leitura desde os planos nacionais/estatais de leitura (que são uma moda do século XXI), mas igualmente campanhas de entidades privadas para a promoção da leitura (veja-se o caso da MTV com a campanha "Desligue a TV e vá ler um livro")
  • A existência de tabelas de vendas que constituem um critério de escolha de livros para muitos leitores e que aproximou as técnicas de vendas dos modelos já instituídos para a música. E aqui encontramos diversos tipos de tabelas de sucessos de vendas desde as criadas por jornais como o top do Jornal New York Times até ao top de vendas de livrarias como a Bertrand.

Simples não é? Uma leitura mais popular e mais orientada para o prazer imediato resultou no aumento de leitores. É o bê-a-bá do marketing empresarial: o mercado constrói-se e depois recupera-se o investimento ao longo do tempo, o que será proporcional à qualidade da continuidade do investimento.
Deixemos de dizer que os jovens de hoje não lêem, deixemos de citar os estudos de 1990 e "qualquer coisa" e passemos a olhar para a nova realidade: nunca se leu tanto, nunca se vendeu tanto como hoje se vende para jovens. Aliás, muitos adultos até podem estar a ler menos do que as crianças de hoje!

É certo que não lêem as obras que muitos pais leram na sua vida, mas afinal também lêem muitas outras obras que os pais nunca leram! É um leitor diferente que nasceu no final do século XX.

Sendo que a quantidade da leitura está em crescendo, resta desejar que essa leitura seja significativa na formação das consciências.

E você... já leu um livro hoje?