Leia em papel: sai mais barato!

A "nova" colecção da Porto Editora de resumos de obras literárias para telemóveis vem mostrar os erros da edição de e-books em Portugal. Sendo que o maior erro é a quase inexistência pelo que esta iniciativa deve merecer a nossa atenção.

No caso desta colecção, as mesmas obras estão disponíveis em papel há muito tempo e com assinalável sucesso comercial pois em 64 páginas resume-se a obra de leitura "supostamente" obrigatória no ensino secundário e se fica com um conhecimento superficial da mesma. Infelizmente é assim que muitos alunos se preparam para os exames nacionais do 12º ano de Português!
Com este cenário é fácil perceber que os baixos custos de produção da obra estão há muito cobertos, constituindo apenas um produto que contribui para o merecido lucro da empresa pela sua ideia (e naturalmente dos autores pelo seu trabalho).
Surge assim como um produto ideal para testar estratégias de edição digital já que as perdas por más opções não representariam custos insuportáveis nem afectariam a sobrevivência dos autores (argumentos falaciosos que já todos ouvimos sobre a publicação de livros digitais).

A nova versão desta colecção em formato digital, reformata os textos para os novos suportes e vem agora acompanhada de narração áudio (2 horas).
A surpresa? O elevado número de erros estratégicos! Vejamos algumas:

  • E-books exclusivamente orientados para o mercado dos telemóveis mas só da Apple. E os outros leitores não Apple (é compatível com iPod Touch e iPad)? E os computadores?
    Percebe-se que o mercado alvo são os alunos do 12º ano, mas acreditam que todos têm Apple iPhone? É que nos outros tipos de telemóvel os problemas colocados pela Porto Editora são caricatos.
  • A versão para telemóveis Nokia (disponível apenas para alguns) corre em sistema Java. Mas alguém ainda anda na pré-história dos e-books?! E por simples 2 euros (cobrados por SMS) consegue aceder a todo o livro ... durante longos 7 dias. Logo os alunos do 12º ano só o vão poder utilizar na semana antes do exame e não ao longo do ano. E repetir o exame vai sair caro! Absolutamente impressionante!
  • E as outras marcas de telemóveis "inteligentes"? Não digam que não conhecem?
  • Preço mais elevado na versão digital: papel a 4,90€ (3,92€ promoção) mas digital a 4,99€. Como dizem os norte-americanos, WTF?
  • Não existência de uma versão digital sem áudio! Quem não pretenda ouvir tem na mesma de pagar mais 1€ do que se comprasse em papel! É claro que não é nada de novo pois já estamos habituados a estas tácticas "fórmula melhorada" do mercado: adicionar características não necessariamente desejadas pelo utilizador para poder re-empacotar e encarecer o produto!

Um produto destes não pode ter um preço acima dos 99 cêntimos (aprendam com a loja de música da Apple iTunes, por favor!) e tem de estar disponível para todos os leitores digitais. 
Mas acima de tudo importa defender um princípio: quem compra tem de ser dono do produto, não pode apenas alugar o conteúdo pelo preço da compra!

Mesmo na simples questão de preços a proposta é totalmente descabida de sentido. Vejamos o caso do resumo da obra de Luís de Sttau Monteiro, "Felizmente Há Luar!".

A versão em papel: 4,90€ (3,92€ em promoção no site da Porto Editora)

A versão digital para iPhon: 4,99€

A versão digital para outros telemóveis: 2€ (mas apenas por 7 dias)

Depois disto tudo só resta dizer: boa sorte para este modelo de distribuição de conteúdos!
Como exemplo de estratégia no mercado dos ebooks fica a certeza que em Portugal ainda existe muito caminho a percorrer.

Nota curiosa: a obra original (a peça de teatro e não o resumo) foi publicada em 1961 e está à venda na Fnac por uns parcos 12.90€ ! Alguém acha que é o preço adequado a uma obra destas, com esta idade e capacidade de vendas por ser obra de leitura obrigatória no ensino secundário?
Como termo de comparação a obra que lidera o top de vendas da Fnac é uma obra recente por 15.75€, com os quais os leitores levam para casa as 400 páginas de "O Braço Esquerdo de Deus" de Paul Hoffman e ainda com oferta T-Shirt!!

Realmente, consumidor paga tudo, até as "pseudo" novidades. Com esta estratégia é melhor continuar a ler em papel!

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