Prof. bibliotecários: o que fazem?

Nos últimos tempos, muito provavelmente ligado ao concurso a professor bibliotecário deste ano, e em alguns dos blogues mais conhecidos na área da educação em Portugal, têm surgido artigos questionando o papel dos professores bibliotecários.
Entre visões tecnocráticas de funcionalismo, visões educativas pelo conflito na defesa de territórios bem como orientações de estilo pseudo-eduquês sob a forma de crítica ao próprio eduquês, de tudo se vê um pouco. Surgem pessoas a protestar pelo excesso de recursos e de condições (!), pessoas a protestar por não estarem todos os professores a dar aulas ou até desconsiderando os que não dão aulas não percebem nada do que se passa na escola.
É um disparar para todos os lados, claques e contra-ataques. Se parece um ataque aos professores bibliotecários a tempo inteiro, é mais que isso. Nem aqueles professores bibliotecários que também têm turma escapam: são todos uns oportunistas e mandriões, o que querem é não dar aulas e "quem dá aulas é que é bom". Temos então uma autêntica visão estereotipada da luta de classes dentro de uma classe, a mole humana contra os que se distinguem do conjunto, os sacrifício de muitos contra os privilégios de poucos.
Na sociedade actual, e naturalmente na educação, este processo de crispação entre pares é muito comum: em tempos de conflito e crise é necessário encontrar "os outros" de forma a dar força ao "nós", que mais não é que uma forma encapotada de falar num "eu" fraco se exposto. Como em tudo segue-se sempre a via mais fácil: apontar dedos para fora em vez de nos olharmos ao espelho. Esquecem que quando apontamos um dedo outros 3 ficam a apontar na nossa própria direcção.
Ao longo de vários comentários e artigos surge a velha visão redutora: só é professor quem dá aulas, aqueles que são os verdadeiros membros da classe docente.
Agora o ataque é os professores bibliotecários, depois o desporto escolar a seguir o ensino especial, hoje a minha escola, amanhã o mundo!

É um modelo de "educação de quintal" ou mesmo do "meu" quintal. A educação da sociedade pode esperar e não é para aqui chamada. É uma visão redutora da educação, uma falta de visão sobre as necessidade da sociedade
Quem sabe se os muitos agricultores de Farmville, que passam o tempo a pedir colaboração para as suas colheitas e quintas e vivem em rede social, consigam fazer o paralelismo com o trabalho de aula e o trabalho de biblioteca escolar numa colaboração em rede educativa!
Como nunca me canso de repetir, conscientemente e de forma provocatória com que todos os exageros se rodeiam, é preciso recordar que muitos (quantos?) professores não foram frequentadores ou utilizadores de bibliotecas na sua vida escolar como alunos. Do mesmo modo as bibliotecas tinham funções diferentes e as exigências dos cursos liceais ou universitários, mesmo os de humanidades, eram bem diferentes. Há um quarto de século (!), quando fui aluno universitário, muitos dos meus colegas nem sequer precisaram de ir à biblioteca para se licenciarem tendo dedicado mais tempo às reprografias. Era assim que funcionava o sistema e, sem crises ou dramas, resultou. É pois natural que seja agora difícil pensar e fazer de forma diferente com os seus próprios alunos! Existe aqui então um salto qualitativo, uma transformação de práticas que levará muito tempo a estabilizar. E que sem mais volta a irromper à superfície quando no meio de outros problemas.

Isto não se trata de mais uma manifestação do eduquês das teorias do ensino construído e participado contra o expositivo (que eu tanto gosto e que tem muito menos defeitos que os que se lhe apontam). O que está aqui em causa é mesmo uma mudança de mentalidades, a necessidade de deixar de trabalhar em quintas e passar a pensar em espaços mais abrangentes. Não são só os alunos que estão aqui em causa, são os próprios professores e o sistema educativo.

Pode a escola viver sem professores bibliotecários a tempo inteiro? Pode... mas não é a mesma coisa!

Quando os professores colocam a questão "O que fazem os professores bibliotecários?" algo vai errado no reino escolar e em várias áreas,
  • Nas bibliotecas escolares que não conseguiram envolver-se no trabalho curricular, prestando os serviços necessários ao sucesso educativo dos alunos
  • Nos professores bibliotecários que não conseguiram desempenhar as suas funções de acordo com o estipulado para a sua função nem conseguiram mostrar a sua utilidade
  • Nos professores com turma que não utilizam a biblioteca em actividades planeadas previamente com o professor bibliotecário... e talvez só a usem para irem deixar os miúdos a pesquisar na Internet até ao próximo intervalo.
  • Na instituição que não conseguiu ter uma identidade própria na utilização dos seus recurso nem consegui promover o trabalho numa equipa única de todos os profissionais
  • Na forma de ver o mundo escolar com apenas com dois lados , o bom e o mau.
Mais que questionar os outros é preciso questionar a actuação de cada um, o que pretendemos para o futuro dos alunos e da instituição..
E isso estende-se desde os professores que se dedicam em exclusividade à leccionação de turmas, aos que desempenham em complemento ou em exclusivo funções administrativas e aos próprios professores bibliotecários.
Cabe a estes e às suas estruturas implementar modelos de trabalho colaborativo em função dos objectivos educativos de uma escola, de uma comunidade, de um país.

Quanto aos artigos dos blogues
"A educação do meu umbigo"

ProfBlog

O que fazem (deviam fazer) os professores bibliotecários?

A resposta pode ser dada de várias formas, está claramente legislada, existe muita literatura sobre o assunto... mas este vídeo da Universidade Aberta com a Isabel Mendinhos será uma boa via:

Sobre o vídeo:
Professores bibliotecários a tempo inteiro?
Quanto à exclusividade de funções do professor bibliotecário não sou dogmático mas tenho uma preferência clara. É certo que não existe um modelo perfeito e nem todas as escolas são iguais pelo que várias soluções são possíveis.
O modelo actual da RBE defende a exclusividade de funções com a possibilidade de trabalho com uma turma. Essas funções são desempenhadas pelo período de 4 anos renováveis por mais 4 após os quais cessam as suas funções na biblioteca.

Em tese prefiro o modelo em que o professor bibliotecário está a tempo inteiro nas suas funções, trabalhando em função de uma escola no seu todo e não a partir da sua turma. Isto permite a disponibilização de tempo de forma mais estruturada, o envolvimento em actividades fora de uma dinâmica rígida de horários escolares, um envolvimento equidistante face às forças e grupos nas escolas bem como uma planificação do trabalho para além de um ano escolar.
Mas também considero que os professores não devem estar muitos anos sem dar aulas, não só para não se "tecnocratizarem", e afastarem do objectivo último da educação, mas também para não serem vistos como um corpo estranho à escola devido às naturais idiossincrasias internas.
Considero então que o modelo da RBE é um modelo que enquadra estas realidades. Depois de um certo tempo (cinco a oito anos) há que dar lugar a outros, que vão certamente trazer novas forças e novas visões.
Mas a verdadeira resposta tem de ser dada por todos os professores: as bibliotecas mudaram, a sociedade mudou, os alunos mudaram, as bibliotecas não podem continuar sem estarem nas aulas, as aulas não podem deixar de integrar os recursos da biblioteca.

Alerta à navegação:
Para os que acham que professor bibliotecário é um "dolce fare niente" apareçam, concorram. Se não for neste ano preparem-se para o próximo. Pelo menos ofereçam-se para a equipa da biblioteca por um ano! Vamos todos ganhar com esse envolvimento.
Para quem quiser fazer planos pessoais, desde já posso garantir que será muito difícil que a grande maioria dos actuais professores bibliotecários fiquem 8 anos no cargo: talvez por ser aborrecido não fazer nada.
Até lá envolvam-se na vossa biblioteca: ajudem a fazer melhor, colaborem, reclamem para melhorar, façam a biblioteca trabalhar melhor e para o que precisam. A biblioteca da vossa escola é a vossa biblioteca.

Quem sou? Sou professor mas que não está a dar aulas pois nos últimos 4 anos tenho desempenhado a função de coordenador interconcelhio para as bibliotecas escolares. Assim quando falo sobre o assunto não falo só por ouvir dizer mas por lidar directamente e diariamente, cada dia numa escola, com professores bibliotecários que procuram desempenhar as suas funções com todas as suas energias.
E também vos digo que não vou ficar velho no cargo... embora envelheça todos os dias!