Outputs e outcomes em bibliotecas: quer mesmo saber?

«Tiveram sempre uma imagem empoeirada - e nunca mais do que agora - mas as bibliotecas estão no centro das nossas Comunidades. Com os machados [orçamentais] prestes a cair, Bella Bathurst revela exactamente o que estamos prestes a perder. (...)
Existem 4.500 bibliotecas públicas na Grã-Bretanha, bem como quase 1000 bibliotecas nacionais e académicas. Com os orçamentos das autoridades locais a serem reduzidos por cortes do governo, até 500 bibliotecas em todo o país terão de fechar. Bibliotecários - tradicionalmente vistos como uma raça de calmos herbívoros - estão em pé de guerra. Em parte porque as bibliotecas públicas são vistas muitas vezes como um alvo fácil; em parte porque dizem que as autoridades locais sempre subestimam a amplitude do que eles fazem, e em parte porque o corte será feito durante uma recessão, que é exactamente quando toda a gente começa a ir à biblioteca novamente .
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Em Worksop (Nottinghamshire, Inglaterra), Peter Collins irradia um amor quer pelas bibliotecas quer pela infinita variedade de pessoas que as utilizam. Ele tem 33 anos e "sempre me defini por ser um bibliotecário".  (...) Collins acredita que as bibliotecas são tão vitais agora como na década de 40, quando Philip Larkin se queixou de carimbar tantas saídas de livros numa semana que a sua mão ficara cheia de bolhas. Mesmo assim, ele gasta muito do seu tempo num jogo incessante de "apanhada". "As bibliotecas estão sempre a tentar provar-se a elas próprias porque o que elas fornecem é intangível. Como será possível quantificar o que alguém obtém a partir dos livros ou revistas?"
Tentativas para o fazer acabam muitas vezes em apuros. "O município, uma vez perguntou-nos por avaliação de 'outcomes', não de 'outputs'", diz Ian Stringer. " 'Outputs' seria saber quantos livros tínhamos emprestado e 'Outcomes' seria aquilo que realmente resultou de alguém ter requisitado um livro. Assim dizer que alguém requisitou um livro sobre arranjar carros e tenha conseguido por o carro a trabalhar, isso seria um resultado; ou que alguém tenha feito um lote de scones utilizando um livro de receitas que teriam emprestado.
Esse pedido durou até que um dos bibliotecários respondeu ao município que tinham alguém que requisitara um livro sobre o suicídio, mas que nunca o devolvera. Depois disso o município parou de perguntar."
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Ele diz que a leitura parece ser cada vez mais um conceito estranho para as crianças. "O ritmo da vida é diferente agora, e as pessoas esperam que a arte lhes aconteça. Música e vídeo fazem isso, o CD faz isso, mas você tem de fazer o livro acontecer. É entre você e ele.
As pessoas podem ser modificadas por meio de livros, e isso é assustador. Quando eu trabalhava numa biblioteca escolar, às vezes ia colocar um livro nas mãos de uma criança e ficava animado por eles, porque eu sabia que poderia ser aquele o livro que mudaria sua vida. E de vez em quando via isso acontecer, via uma espécie de luz surgir por detrás dos seus olhos. Mesmo que seja algo como 0,4% da população a quem isso aconteça, já valerá a pena, não é? "

O bem mais precioso das bibliotecas é a conversa que possibilitam - entre livros e leitores, entre filhos e pais, entre indivíduos e o mundo colectiva. Tire-lhes isso e essas vozes vão virar-se para o interior ou desaparecer. Afinal as bibliotecas nada têm a ver com o silêncio.»

Fonte: tradução de parte da crónica de Bella Bathurst - "The secret life of libraries" (The Observer)
www.guardian.co.uk/books/2011/may/01/the-secret-life-of-libraries