Escolares e Públicas: Concorrentes?

O secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, admitiu hoje, no Parlamento, que "Portugal tem um excesso de equipamentos culturais" e muitos deles não estão aproveitados.

"As bibliotecas da rede publica vivem um período de crise e precisam de um novo plano", afirmou.
Como razões dessa crise apontou a mudança dos hábitos de leitura e o crescimento da rede de bibliotecas escolares, que atualmente são concorrentes das bibliotecas públicas, reconheceu. (Jornal i - 26 de Julho de 2011)

Como? Concorrentes? Nunca! Em muitos locais até chegaram depois das bibliotecas escolares. Em qualquer dos casos o que deve existir (e existe em muitos) é complementaridade. Onde está o problema? Sim o mundo está em mudança, mas sim as bibliotecas também têm de mudar.

A fugir como o diabo da cruz
De contrário vão ter muitos problemas!
  • Horários, horários, horários. Nada melhor como fechar para férias em Agosto numa região como o Algarve, fechar ao fim de semana, fechar quando as pessoas saem do trabalho. 
  • Não dinamizar atividades (mesmo as que não requerem verbas)
  • Estacionamento e transportes públicos? Não obrigado que eu vou a pé! Mas quem foi o professor que ensinou uma geração de urbanistas a colocarem bibliotecas em locais onde não existem estacionamentos nem transportes públicos? Converter edifícios históricos para depois não existir espaço nem dentro nem fora? Como pensam que as pessoas podem ir devolver um livro em 5 minutos? Ao menos uma pista para helicópteros! É o que dá não saber distinguir um polo de uma biblioteca central! Seria de recordar os polos de biblioteca ingleses em centros comerciais!

    Categorias de leitores
    Arranjem leitores e coloquem os empréstimos em segundo lugar! O que é preciso são pessoas, utilizadores, consumidores. As escolas podem criar leitores, as públicas precisam de os transformar em utilizadores (o famoso  conceito de "patrons" das bibliotecas dos EUA).
    Podem começar com uma coisa simples: já pensaram em inscrever todos os alunos das escolas do concelho como utilizadores? Ora aí está algo que podem fazer já em Setembro e nós até ajudamos. Claro que é preciso esquecer muitas formalidades, as faturas da luz, da água, a recomendação do padre, o cartão de vacinas, o atestado de residência, as 50 fotografias tipo passe etc, etc.

    Se os clubes de futebol têm sócios de várias categorias, com privilégios diferentes...
    • porque não os imitam as bibliotecas públicas criando cartões de leitor com diferentes direitos de requisição? 
    • Porque não cartões temporários para visitantes do concelho? 
    • Porque não cartões de leitor interbibliotecas para quando alguém vai de férias para outro município? Porque tratar com desconfiança um leitor que noutro município é um valor da biblioteca pública?
    Como só se pensa em empréstimos perde-se tempo com empréstimos entre bibliotecas, mas a relação entre o tempo gasto e os resultados aí obtidos tem sido uma deceção! Desçam do pedestal das teorias da formação especializada e entrem no mundo real.

    Mudar o paradigma da utilização
    Apostar tudo em requisições e suas estatísticas é um erro:
    • é preciso ter utilizadores, ter vida nas salas e corredores
    • é preciso promover a cultura da região, os seus escritores, poetas e artistas plásticos e musicais
    • é preciso movimentar diariamente pessoas jovens para utilizar a biblioteca, porque também trazem os pais à porta e até podem entrar enquanto esperam.
    • é preciso estar online e fornecer serviços a quem está em casa: têm facebook, têm o catálogo online, respondem por email?
    • é preciso ter atenção ao público idoso, sejam os na 3ª idade sejam os já na 4ª idade!
    • é preciso ser a biblioteca do município, de todos os munícipes
    Arranjem utilizadores de todas as idades, não esperem por eles à porta. Corram por eles, pois os utilizadores serão os amigos da biblioteca que a vão defender, hoje e sempre, defender quando forem votantes, presidentes do município, donas de casa ou pais da próxima geração de utilizadores!
    E serão leitores. Ah pois é! Podia ser mais fácil? Podia, mas não era a mesma coisa!